Contribuição do Conselho Português para Saúde
Ambiente

para a Discussão Pública da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030

  1. A Saúde está insuficientemente referenciada na ENAAC 2030

    O Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) saúda como positiva a atualização da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, mas considera que as alterações climáticas são apenas uma das determinantes ambientais da Saúde, que estão em mudança acelerada e em relação às quais nos temos que adaptar. Incluem-se nestas determinantes o problema da sobrepopulação, a poluição atmosférica, química, sonora, e luminosa, a degradação dos ecossistemas, a perda da biodiversidade e a escassez de recursos naturais. Em termos de saúde todos estes fatores têm um impacto sinérgico e sistémico sobre a saúde das populações, difícil de ser avaliado separadamente.
    Apesar de o documento reconhecer brevemente “riscos acrescidos” para a saúde, a saúde ocupa um espaço marginal em toda a estratégia, especialmente quando comparada com sectores como água, agricultura, florestas ou energia. Como exemplos, a ENAAC não refere a saúde quando se fala de capacitação, de articulação com políticas, proteção de populações vulneráveis, riscos urbanos ou financiamento.

    1.1. Falta uma avaliação aprofundada dos riscos climáticos para a saúde

    O documento contém mais de 40 páginas, mas apenas três parágrafos referem impactos diretos na saúde (ondas de calor, doenças cardiovasculares, respiratórias e doenças transmitidas por vetores).

    Não se mencionam:
    • Mortalidade por calor em Portugal
    • Risco aumentado de zoonoses
    • Morbilidade associada ao ozono troposférico e PM2.5 climatossensíveis
    • Impacto das cheias e dos incêndios florestais
    • Alterações na distribuição de doenças transmitidas por alimentos e água
    • Impacto nas perturbações mentais

    1.2. O setor da saúde praticamente não surge nas medidas estratégicas

    Nos objetivos A–D e respetivas linhas de atuação, não aparece nenhuma medida específica para o Sistema de Saúde, nem para:
    • Hospitais
    • Cuidados de saúde primários
    • Saúde pública
    • Saúde ambiental
    • Proteção de profissionais de saúde
    • Sistemas de vigilância epidemiológica
    • Laboratórios
    • Planos de contingência climática

    A saúde surge apenas como uma “área-chave” visualmente indicada em figuras mas sem qualquer conteúdo operacional.

    1.3. Ausência de metas, indicadores ou monitorização em saúde

    Contrariamente ao que recomenda a European Climate Risk Assessment (EUCRA 2024) e o WHO Operational Framework for Climate-resilient Health Systems (2021), não há:
    • Indicadores de mortalidade por calor
    • Indicadores de internamentos por causas climatossensíveis
    • Indicadores de doenças transmitidas por vetores
    • Indicadores de stress térmico urbano
    • Indicadores de risco climático hospitalar

    1.4. Falta de ligação com políticas essenciais portuguesas de saúde e clima

    O documento não se articula com:
    • Plano Nacional de Saúde 2030
    • Planos Português de Contingência para Ondas de Calor (DGS)
    • Plano para Resposta Sazonal em Saúde (DGS)

  2. Recomendações do CPSA para a ENAAC 2030

    2.1. Desenvolvimento de um Plano Setorial de Adaptação para a Saúde

    Criar um Plano Nacional de Adaptação da Saúde 2025–2030, contendo:
    • análise de riscos climáticos específicos
    • prioridades de adaptação
    • indicadores
    • financiamento dedicado
    • responsabilidades institucionais (DGS, INSA, ACSS, ARS, Municípios)
    • integração do SNS com o setor privado2.2. Reforço dos sistemas de alerta precoce em saúde

    • Sistemas de alerta precoce de ondas de calor
    • Previsão de surtos de doenças transmitidas por vetores que já existem e vários países europeus como a infeção por vírus do, Nilo Ocidental e Chikungunya
    • Alerta para riscos de qualidade da água ou dos alimentos

    2.3. Climatização resiliente dos hospitais e unidades de saúde

    • Avaliação climática de todos os hospitais
    • Reforço da redundância energética e hídrica
    • Avaliação de risco de cheias e incêndios
    • Reabilitação térmica de unidades de saúde
    • Atualização da capacidade de resposta a ondas de calor
    • Mapas de risco hospitalar

    2.4. Saúde pública: vigilância climática reforçada

    • Sistema nacional de vigilância saúde e clima em tempo real.
    • Referência e apoio ao Observatório Português da Saúde Ambiente, criado pelo CPSA.

    2.5. Preparação e capacitação do Sistema de Saúde

    A ENAAC discute capacitação, mas não inclui a saúde.

    Deve incluir:

    • Inclusão da formação em alterações ambientais e saúde na formação pré e pós-graduada de todos os profissionais de saúde
    • Elaboração de Normas de Orientação Clínicas para resposta nos caos de catástrofes climáticas
    • Criação de linhas de apoio pós-eventos climáticos
    • Existência de Planos de emergência a todos os níveis que articulem a saúde com a proteção covil e os sistemas público e privado
    • Devem ser promovidas auditorias de resiliência climática às infraestruturas de saúde, avaliando riscos hídricos, energéticos, térmicos, de mobilidade e de exposição a eventos extremos
    • Orientação para a construção ou reabilitação de hospitais que aumentem a sua flexibilidade e escalabilidade a sua capacidade de resposta a catástrofes climáticas ou a uma nova pandemia
    • Garantir boa comunicação e coordenação dos diferentes níveis de cuidados e com a assistência social
    • Sistemas de informação e comunicação robustos
    • Recursos humanos adequados e suficientes

    2.6. Populações vulneráveis

    A estratégia fala genericamente de “resiliência justa” (p. 22) mas sem medidas operacionais.

    Deve incluir:
    • A existência de mapas territoriais de vulnerabilidade em saúde com a Identificação geográfica de idosos isolados, doentes crónicos, crianças, migrantes, trabalhadores expostos (agricultura, construção)
    • Planos municipais de proteção climática para lares, escolas, prisões, bairros sociais
    • Centros de arrefecimento/climatização acessíveis identificados em todas as autarquias

    2.7. Segurança hídrica e alimentar em saúde

    • Monitorização reforçada de doenças transmitidas pela água durante secas
    • Proteção de captações de água para unidades de saúde
    • Reforço da segurança alimentar durante eventos extremos

    2.8. Integração com o ordenamento e urbanismo

    • Planeamento urbano orientado para saúde (nature-based solutions)
    • Arborização urbana priorizada em áreas de risco térmico elevado
    • Mapeamento obrigatório e público das ilhotas de calor em todos os municípios

    2.9. Financiamento dedicado à saúde

    • Fundo nacional dedicado a hospitais resilientes
    • Financiamento para vigilância epidemiológica
    • Linhas LIFE / Horizon EU adaptadas ao setor da saúde
    • São prioritários os investimentos que contribuam para a eficiência térmica, resiliência energética, reforço da disponibilidade hídrica e implementação de tecnologias de monitorização e gestão de risco

    2.10. Investigação e Inovação em Alterações Climáticas e Saúde

    • Definição de uma agenda nacional de investigação sobre os impactos das alterações climáticas na saúde, incluindo estudos de modelação e avaliação prospetiva dos riscos
    • Devem ser incentivadas parcerias entre o Serviço Nacional de Saúde, grupos privados de saúde, instituições científicas, autarquias e outras entidades relevantes, com vista ao desenvolvimento de soluções inovadoras e baseadas

    2.11. Comunicação e Literacia em Saúde Climática

    • Devem ser desenvolvidas campanhas de comunicação e sensibilização dirigidas ao público em geral e a grupos de risco, sobre os efeitos das alterações climáticas na saúde e sobre comportamentos de prevenção. na evidência científica

     

     

    Pela Direção do CPSA,
    Luís Campos
    30 de novembro de 2025