1.Contexto
As principais determinantes ambientais da saúde , alterações climáticas, poluição, degradação dos ecossistemas e perda de biodiversidade, continuam a evoluir conforme os cenários mais pessimistas.
O ano de 2024 foi o mais quente que já se registou e, segundo os especialistas, poderá ter sido o mais fresco do resto das nossas vidas. Nesse ano, as temperaturas médias globais ultrapassaram 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, o limite estabelecido pelo Acordo de Paris para 2100. O sul da Europa registou um recorde de 66 dias com forte stress térmico (>32 °C) durante o verão.
As alterações climáticas traduzem-se também num maior risco de catástrofes — inundações, secas, incêndios e migrações forçadas, que testemunhamos diariamente. Portugal é o país europeu mais vulnerável a incêndios florestais, tendo sofrido incêndios em mais de 20% do território nos últimos 20 anos.
Atualmente, estão identificados 25 pontos de não retorno suscetíveis de desencadear alterações climáticas de dimensões e ritmos imprevisíveis. A alteração das correntes do Atlântico é uma das mais iminentes. As emissões globais de gases com efeito de estufa aumentaram mais de 20% nas últimas duas décadas, sem sinais consistentes de redução. Algumas transformações, nomeadamente as relacionadas com os oceanos, as calotes de gelo e o nível do mar, são já irreversíveis.
Estas mudanças têm impacto direto e profundo na saúde humana, sendo responsáveis por mais de um quarto da mortalidade global.
O setor da saúde, por seu lado, é simultaneamente vítima e agente deste problema: em Portugal, representa cerca de 4,8% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa.
Apesar de as alterações ambientais constituírem o maior desafio de saúde pública das próximas décadas, persiste uma consciência social, profissional e política insuficientes e um défice de educação e investigação nestas matérias.
A reversão desta trajetória ainda é possível, mas depende das decisões que cada país, cada organização e cada cidadão tomarem nos próximos anos.
Os profissionais de saúde, enquanto cuidadores e advogados dos doentes, detêm um capital de confiança que lhes confere uma responsabilidade ética acrescida: participar ativamente neste desafio global. Estas transformações não dizem respeito apenas a ambientalistas ou jovens ativistas mas afetam todos nós e comprometem o futuro das gerações vindouras.
2. Visão e objetivos do Conselho Português para a Saúde e Ambiente
Foi esta consciência que motivou a fundação do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), em 19 de outubro de 2022.
A nossa visão é a de que todas as gerações têm direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável, conforme reconhecido pelas Nações Unidas em 2022.
O CPSA tem como missão constituir uma rede colaborativa entre as principais organizações ligadas à saúde, com os seguintes objetivos:
• Reduzir o impacto das alterações ambientais na saúde;
• Diminuir a pegada ambiental do setor da saúde;
• Promover a sensibilização do público e dos profissionais;
• Integrar a sustentabilidade ambiental na formação pré e pós-graduada;
• Fomentar a investigação científica;
• Apoiar o sistema de saúde na resposta à transição epidemiológica e aos riscos climáticos.
O CPSA integra atualmente mais de 105 organizações — associações profissionais, ordens, instituições académicas, sociedades científicas, grupos privados de saúde, laboratórios farmacêuticos, centros de investigação, unidades locais de saúde, câmaras municipais, associações de doentes, empresas tecnológicas, seguradoras e entidades de gestão de resíduos. Trata-se da aliança mais transversal na área da saúde em Portugal e uma das mais abrangentes a nível internacional.
Em 2025, o CPSA consolidou a sua presença e influência pública, através de:
• Comunicados e pareceres sobre políticas e documentos oficiais;
• Elaboração e publicação de Recomendações setoriais de sustentabilidade ambiental;
• 2.ª edição do Curso Internacional Saúde e Ambiente, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública;
• Publicação do 1.º Relatório do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA);
• Realização do 1.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente, com mais de 1.000 participantes de 50 profissões;
• Criação da Plataforma de Boas Práticas em Sustentabilidade Ambiental;
• Criação de quatro clusters temáticos, que hoje constituem o principal motor operacional e colaborativo do CPSA.
• Realização de dois workshops com peritos e a criação da Comunidade do Observatório Português da Saúde e Ambiente;
• Realização da 1ª Edição do Curso Aplicado de Análise de Políticas em Saúde e Ambiente;
Apesar dos progressos alcançados, o CPSA mantém uma estrutura operacional reduzida e depende maioritariamente das quotas dos seus associados.
3. Objetivos estratégicos e ações para 2026
3.1. Dinamizar e apoiar a colaboração entre os associados através dos quatro clusters temáticos
Em 2026, o objetivo será consolidar e ampliar o impacto dos Clusters, assegurando a execução de iniciativas concretas e mensuráveis, o desenvolvimento de metodologias comuns, a disseminação de resultados através do Observatório e do Congresso Nacional, a coordenação transversal via Steering Committee trimestral, a visibilidade pública, a mobilização de financiamento externo e a integração de evidência e métricas no OPSA.
Cada Cluster será acompanhado pelo Gestor do Programa, responsável pela execução do plano anual, pela gestão dos indicadores e pelo reporte à Direção.
3.1.1. Cluster do Conhecimento, Inovação e One Health
Objetivo: Promover a literacia, o conhecimento e a inovação aplicados à interseção entre saúde humana, animal e ambiental.
Iniciativas prioritárias 2026:
• Webinars “One Health” — democratizar o conhecimento e inspirar a ação através de debates sobre desafios emergentes;
• Selo de Sustentabilidade — distinguir instituições de saúde que adotem práticas sustentáveis;
• Prémio de Inovação em Sustentabilidade Ambiental — identificar e apoiar projetos inovadores com impacto replicável.
Indicadores:
• 6 webinars realizados;
• 10 instituições candidatas ao Selo;
• 1ª edição do Prémio de Inovação.
3.1.2. Cluster da Sustentabilidade Ambiental e Resiliência
Objetivo: Reduzir a pegada ecológica do sistema de saúde e aumentar a resiliência diante das alterações climáticas.
Iniciativas prioritárias 2026:
• Podcast “Conversas sobre Saúde e Ambiente” — espaço de diálogo entre especialistas, decisores e cidadãos;
• Living Lab Saúde Circular — laboratório colaborativo para testar, avaliar e partilhar soluções sustentáveis.
Indicadores:
• 8 episódios do podcast;
• 8 instituições envolvidas no Living Lab;
• 3 relatórios de impacto publicados.
3.1.3. Cluster do Medicamento e Dispositivos Médicos
Objetivo: Promover a economia circular e reduzir o impacto ambiental da cadeia dos medicamentos e dispositivos médicos.
Iniciativa prioritária 2026:
• Aumentar a taxa de recolha de medicamentos, promovendo comportamentos responsáveis e mitigando riscos ambientais.
Indicadores:
• +15% na taxa de recolha Valormed;
• 1 relatório público de resultados e impacto.
3.1.4. Cluster da Saúde Urbana e Resposta a Catástrofes
Objetivo: Apoiar políticas e práticas de planeamento urbano saudável e reforçar a preparação diante de eventos climáticos extremos.
Iniciativas prioritárias 2026:
• Whitepaper “Saúde Urbana e Avaliação de Impacto Ambiental” — enquadramento metodológico com indicadores de saúde pública;
• Living Book “Eventos Extremos” — guia prático e colaborativo para cidadãos e instituições.
Indicadores:
• Publicação de 1 Whitepaper;
• 1 Living Book publicado e atualizado online;
• 2 workshops de disseminação.
Mecanismos de acompanhamento e comunicação:
• Dashboard online atualizado mensalmente;
• Reuniões trimestrais com coordenadores de clusters;
• Integração de resultados no Relatório Anual do OPSA;
• Apresentação pública no Congresso Nacional.
Recursos e financiamento:
• Priorização de projetos colaborativos, de baixo custo e elevado impacto;
• Identificação de oportunidades de financiamento no PRR, no Portugal 2030, no Horizon Europe e em fundações privadas.
Resultados esperados 2026:
• 8 iniciativas implementadas e avaliadas;
• Clusters com planos e reporting regulares;
• Integração plena dos Clusters no funcionamento do CPSA;
• Reforço do posicionamento nacional e internacional do CPSA.
• Aumento do número de associados
3.2. Promover a partilha das iniciativas dos associados e a participação nas atividades do CPSA
• Realização do 2.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente;
• Reuniões trimestrais entre a Direção e os associados;
• Dinamização da Plataforma de Boas Práticas, site, redes sociais e newsletter;
• Auscultação regular dos associados sobre políticas públicas e posições do CPSA, assim como expectativas e necessidades de apoio do CPSA para consolidar a relação com os associados e abrir oportunidades estratégicas, que continuem a trazer mais associados.
• Divulgação das iniciativas dos membros em todos os canais;
• Apoio aos Webinars (Cluster do Conhecimento) e ao Podcast (Cluster da Sustentabilidade Ambiental);
• Visitas de estudo temáticas a instituições e locais relevantes.
3.3. Aumentar a visibilidade e influência do CPSA nas políticas públicas
• Reuniões regulares com decisores políticos e organismos reguladores;
• Colaboração na elaboração de documentos e legislação em áreas da saúde e do ambiente;
• Participação ativa em consultas públicas e emissão de pareceres;
• Comunicados e posicionamentos sobre acontecimentos ou políticas relevantes;
• Envolvimento de responsáveis institucionais e governamentais em eventos do CPSA;
• Dinamização da presença digital (site, redes sociais, YouTube);
• Encontros com jornalistas e media especializados;
• Alargamento do número e diversidade de associados;
• Apoio ao Prémio de Inovação e ao Selo de Sustentabilidade;
• Criação de um kit de comunicação para associados;
• Promoção de declaração conjunta de compromissos de mitigação e adaptação climática.
3.4. Reforçar a capacidade operacional do CPSA e diversificar fontes de financiamento
• identificação de oportunidades de financiamento, de patrocínio / mecenato e de obtenção de proveitos que permitam a sustentabilidade financeira do CPSA e a ampliação da sua capacidade operacional
• Procurar uma nova sede para o CPSA;
• Angariar voluntários e colaboradores (consoante a disponibilidade financeira);
• Manter a colaboração com empresas e profissionais de apoio (contabilidade, comunicação, imagem, secretariado) e recrutar novos colaboradores de acordo com as necessidades e com a disponibilidade financeira.
3.5. Elaborar e implementar normas de boas práticas ambientais
• Desenvolver, com sociedades científicas e instituições de saúde, normas de sustentabilidade prioritárias em 2026 (gases anestésicos, patologia clínica, bloco operatório, hemodiálise);
• Dinamizar a Plataforma de Partilha de Boas Práticas;
• Promover a divulgação pública de boas práticas (site, redes sociais, newsletter, curso, congresso).
3.6. Contribuir para a capacidade de análise, o conhecimento e a monitorização da relação entre saúde e ambiente
• Expandir o âmbito de análises e elaborar o 2.º Relatório do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA) no início do ano;
• Mapear e criar um repertório de fontes de dados, estudos e análises incidentes sobre a realidade portuguesa e o seu contexto internacional;
• Continuar o ciclo de webinares dedicados a temas da realidade portuguesa no âmbito da Saúde e Ambiente;
• Continuar a dinamizar a Comunidade de Peritos do OPSA e atualizar continuamente a base de colaboração entre todos.
3.7. Promover a literacia ambiental e a educação em saúde sustentável
• Elaborar e divulgar a Carta de Comportamentos Amigos do Ambiente;
• Criar área dedicada ao público no site e redes sociais;
• Produzir recomendações práticas para proteção em calor extremo e catástrofes;
• Organizar nova edição do Curso Internacional Saúde e Ambiente (ENSP-NOVA);
• Apelar às escolas de saúde e ordens para integrar sustentabilidade nos currículos;
• Participar em projetos financiados pela União Europeia;
• Angariar financiamento para estudos e investigação aplicada;
• Promover sessões públicas e campanhas de sensibilização sobre Saúde e Ambiente.
3.8. Estimular a saúde urbana e a ligação às autarquias
• Apoiar o Whitepaper sobre Saúde Urbana;
• Apoiar o Living Book sobre eventos climáticos extremos (Cluster da Saúde Urbana).
3.9. Apoiar iniciativas de economia circular em saúde
• Apoiar o projeto Second Chance;
• Apoiar o Living Lab de Saúde Circular (Cluster da Sustentabilidade Ambiental).
3.10. Consolidar e estimular as parcerias internacionais do CPSA e a projeção internacional do CPSA
• Manter a colaboração com os parceiros internacionais do CPSA: European Climate and Health Observatory, Lancet Countdown, Planetary Health Alliance, Healthcare Without Harm;
• Reforço de laços com organizações dos países lusófonos;
Manter a presença em reuniões científicas internacionais, apresentando o caráter inédito do CPSA, pela sua diversidade e abrangência das atividades.
Conclusão
O Plano de Atividades 2026 consolida o papel do CPSA como aliança nacional de referência na promoção da sustentabilidade ambiental na saúde. O seu sucesso dependerá da mobilização dos associados, da cooperação intersetorial e do compromisso ético e científico de todos os que reconhecem que cuidar do planeta +e também cuidar da saúde.
Pela Direção do CPSA
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Luís Campos
Presidente do CPSA
Lisboa, 24 novembro 2025