Plano de Atividade para 2026

Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA)

1.Contexto

As principais determinantes ambientais da saúde , alterações climáticas, poluição, degradação dos ecossistemas e perda de biodiversidade, continuam a evoluir conforme os cenários mais pessimistas.

O ano de 2024 foi o mais quente que já se registou e, segundo os especialistas, poderá ter sido o mais fresco do resto das nossas vidas. Nesse ano, as temperaturas médias globais ultrapassaram 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, o limite estabelecido pelo Acordo de Paris para 2100. O sul da Europa registou um recorde de 66 dias com forte stress térmico (>32 °C) durante o verão.

As alterações climáticas traduzem-se também num maior risco de catástrofes — inundações, secas, incêndios e migrações forçadas, que testemunhamos diariamente. Portugal é o país europeu mais vulnerável a incêndios florestais, tendo sofrido incêndios em mais de 20% do território nos últimos 20 anos.

Atualmente, estão identificados 25 pontos de não retorno suscetíveis de desencadear alterações climáticas de dimensões e ritmos imprevisíveis. A alteração das correntes do Atlântico é uma das mais iminentes. As emissões globais de gases com efeito de estufa aumentaram mais de 20% nas últimas duas décadas, sem sinais consistentes de redução. Algumas transformações, nomeadamente as relacionadas com os oceanos, as calotes de gelo e o nível do mar, são já irreversíveis.

Estas mudanças têm impacto direto e profundo na saúde humana, sendo responsáveis por mais de um quarto da mortalidade global.

O setor da saúde, por seu lado, é simultaneamente vítima e agente deste problema: em Portugal, representa cerca de 4,8% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa.

Apesar de as alterações ambientais constituírem o maior desafio de saúde pública das próximas décadas, persiste uma consciência social, profissional e política insuficientes e um défice de educação e investigação nestas matérias.

A reversão desta trajetória ainda é possível, mas depende das decisões que cada país, cada organização e cada cidadão tomarem nos próximos anos.

Os profissionais de saúde, enquanto cuidadores e advogados dos doentes, detêm um capital de confiança que lhes confere uma responsabilidade ética acrescida: participar ativamente neste desafio global. Estas transformações não dizem respeito apenas a ambientalistas ou jovens ativistas mas afetam todos nós e comprometem o futuro das gerações vindouras.

2. Visão e objetivos do Conselho Português para a Saúde e Ambiente

Foi esta consciência que motivou a fundação do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), em 19 de outubro de 2022.

A nossa visão é a de que todas as gerações têm direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável, conforme reconhecido pelas Nações Unidas em 2022.

O CPSA tem como missão constituir uma rede colaborativa entre as principais organizações ligadas à saúde, com os seguintes objetivos:

• Reduzir o impacto das alterações ambientais na saúde;

• Diminuir a pegada ambiental do setor da saúde;

• Promover a sensibilização do público e dos profissionais;

• Integrar a sustentabilidade ambiental na formação pré e pós-graduada;

• Fomentar a investigação científica;

• Apoiar o sistema de saúde na resposta à transição epidemiológica e aos riscos climáticos.

O CPSA integra atualmente mais de 105 organizações — associações profissionais, ordens, instituições académicas, sociedades científicas, grupos privados de saúde, laboratórios farmacêuticos, centros de investigação, unidades locais de saúde, câmaras municipais, associações de doentes, empresas tecnológicas, seguradoras e entidades de gestão de resíduos. Trata-se da aliança mais transversal na área da saúde em Portugal e uma das mais abrangentes a nível internacional.

Em 2025, o CPSA consolidou a sua presença e influência pública, através de:

• Comunicados e pareceres sobre políticas e documentos oficiais;

• Elaboração e publicação de Recomendações setoriais de sustentabilidade ambiental;

• 2.ª edição do Curso Internacional Saúde e Ambiente, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública;

• Publicação do 1.º Relatório do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA);

• Realização do 1.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente, com mais de 1.000 participantes de 50 profissões;

• Criação da Plataforma de Boas Práticas em Sustentabilidade Ambiental;

• Criação de quatro clusters temáticos, que hoje constituem o principal motor operacional e colaborativo do CPSA.

• Realização de dois workshops com peritos e a criação da Comunidade do Observatório Português da Saúde e Ambiente;

• Realização da 1ª Edição do Curso Aplicado de Análise de Políticas em Saúde e Ambiente;

Apesar dos progressos alcançados, o CPSA mantém uma estrutura operacional reduzida e depende maioritariamente das quotas dos seus associados.

3. Objetivos estratégicos e ações para 2026

3.1. Dinamizar e apoiar a colaboração entre os associados através dos quatro clusters temáticos

Em 2026, o objetivo será consolidar e ampliar o impacto dos Clusters, assegurando a execução de iniciativas concretas e mensuráveis, o desenvolvimento de metodologias comuns, a disseminação de resultados através do Observatório e do Congresso Nacional, a coordenação transversal via Steering Committee trimestral, a visibilidade pública, a mobilização de financiamento externo e a integração de evidência e métricas no OPSA.

Cada Cluster será acompanhado pelo Gestor do Programa, responsável pela execução do plano anual, pela gestão dos indicadores e pelo reporte à Direção.

3.1.1. Cluster do Conhecimento, Inovação e One Health

Objetivo: Promover a literacia, o conhecimento e a inovação aplicados à interseção entre saúde humana, animal e ambiental.

Iniciativas prioritárias 2026:

• Webinars “One Health” — democratizar o conhecimento e inspirar a ação através de debates sobre desafios emergentes;

• Selo de Sustentabilidade — distinguir instituições de saúde que adotem práticas sustentáveis;

• Prémio de Inovação em Sustentabilidade Ambiental — identificar e apoiar projetos inovadores com impacto replicável.

Indicadores:

• 6 webinars realizados;

• 10 instituições candidatas ao Selo;

• 1ª edição do Prémio de Inovação.

3.1.2. Cluster da Sustentabilidade Ambiental e Resiliência

Objetivo: Reduzir a pegada ecológica do sistema de saúde e aumentar a resiliência diante das alterações climáticas.

Iniciativas prioritárias 2026:

• Podcast “Conversas sobre Saúde e Ambiente” — espaço de diálogo entre especialistas, decisores e cidadãos;

Living Lab Saúde Circular — laboratório colaborativo para testar, avaliar e partilhar soluções sustentáveis.

Indicadores:

• 8 episódios do podcast;

• 8 instituições envolvidas no Living Lab;

• 3 relatórios de impacto publicados.

3.1.3. Cluster do Medicamento e Dispositivos Médicos

Objetivo: Promover a economia circular e reduzir o impacto ambiental da cadeia dos medicamentos e dispositivos médicos.

Iniciativa prioritária 2026:

• Aumentar a taxa de recolha de medicamentos, promovendo comportamentos responsáveis e mitigando riscos ambientais.

Indicadores:

• +15% na taxa de recolha Valormed;

• 1 relatório público de resultados e impacto.

3.1.4. Cluster da Saúde Urbana e Resposta a Catástrofes

Objetivo: Apoiar políticas e práticas de planeamento urbano saudável e reforçar a preparação diante de eventos climáticos extremos.

Iniciativas prioritárias 2026:

Whitepaper “Saúde Urbana e Avaliação de Impacto Ambiental” — enquadramento metodológico com indicadores de saúde pública;

Living Book “Eventos Extremos” — guia prático e colaborativo para cidadãos e instituições.

Indicadores:

• Publicação de 1 Whitepaper;

• 1 Living Book publicado e atualizado online;

• 2 workshops de disseminação.

Mecanismos de acompanhamento e comunicação:

Dashboard online atualizado mensalmente;

• Reuniões trimestrais com coordenadores de clusters;

• Integração de resultados no Relatório Anual do OPSA;

• Apresentação pública no Congresso Nacional.

Recursos e financiamento:

• Priorização de projetos colaborativos, de baixo custo e elevado impacto;

• Identificação de oportunidades de financiamento no PRR, no Portugal 2030, no Horizon Europe e em fundações privadas.

Resultados esperados 2026:

• 8 iniciativas implementadas e avaliadas;

• Clusters com planos e reporting regulares;

• Integração plena dos Clusters no funcionamento do CPSA;

• Reforço do posicionamento nacional e internacional do CPSA.

• Aumento do número de associados

3.2. Promover a partilha das iniciativas dos associados e a participação nas atividades do CPSA

• Realização do 2.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente;

• Reuniões trimestrais entre a Direção e os associados;

• Dinamização da Plataforma de Boas Práticas, site, redes sociais e newsletter;

• Auscultação regular dos associados sobre políticas públicas e posições do CPSA, assim como expectativas e necessidades de apoio do CPSA para consolidar a relação com os associados e abrir oportunidades estratégicas, que continuem a trazer mais associados.

• Divulgação das iniciativas dos membros em todos os canais;

• Apoio aos Webinars (Cluster do Conhecimento) e ao Podcast (Cluster da Sustentabilidade Ambiental);

• Visitas de estudo temáticas a instituições e locais relevantes.

3.3. Aumentar a visibilidade e influência do CPSA nas políticas públicas

• Reuniões regulares com decisores políticos e organismos reguladores;

• Colaboração na elaboração de documentos e legislação em áreas da saúde e do ambiente;

• Participação ativa em consultas públicas e emissão de pareceres;

• Comunicados e posicionamentos sobre acontecimentos ou políticas relevantes;

• Envolvimento de responsáveis institucionais e governamentais em eventos do CPSA;

• Dinamização da presença digital (site, redes sociais, YouTube);

• Encontros com jornalistas e media especializados;

• Alargamento do número e diversidade de associados;

• Apoio ao Prémio de Inovação e ao Selo de Sustentabilidade;

• Criação de um kit de comunicação para associados;

• Promoção de declaração conjunta de compromissos de mitigação e adaptação climática.

3.4. Reforçar a capacidade operacional do CPSA e diversificar fontes de financiamento

• identificação de oportunidades de financiamento, de patrocínio / mecenato e de obtenção de proveitos que permitam a sustentabilidade financeira do CPSA e a ampliação da sua capacidade operacional

• Procurar uma nova sede para o CPSA;

• Angariar voluntários e colaboradores (consoante a disponibilidade financeira);

• Manter a colaboração com empresas e profissionais de apoio (contabilidade, comunicação, imagem, secretariado) e recrutar novos colaboradores de acordo com as necessidades e com a disponibilidade financeira.

3.5. Elaborar e implementar normas de boas práticas ambientais

• Desenvolver, com sociedades científicas e instituições de saúde, normas de sustentabilidade prioritárias em 2026 (gases anestésicos, patologia clínica, bloco operatório, hemodiálise);

• Dinamizar a Plataforma de Partilha de Boas Práticas;

• Promover a divulgação pública de boas práticas (site, redes sociais, newsletter, curso, congresso).

3.6. Contribuir para a capacidade de análise, o conhecimento e a monitorização da relação entre saúde e ambiente

• Expandir o âmbito de análises e elaborar o 2.º Relatório do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA) no início do ano;

• Mapear e criar um repertório de fontes de dados, estudos e análises incidentes sobre a realidade portuguesa e o seu contexto internacional;

• Continuar o ciclo de webinares dedicados a temas da realidade portuguesa no âmbito da Saúde e Ambiente;

• Continuar a dinamizar a Comunidade de Peritos do OPSA e atualizar continuamente a base de colaboração entre todos.

3.7. Promover a literacia ambiental e a educação em saúde sustentável

• Elaborar e divulgar a Carta de Comportamentos Amigos do Ambiente;

• Criar área dedicada ao público no site e redes sociais;

• Produzir recomendações práticas para proteção em calor extremo e catástrofes;

• Organizar nova edição do Curso Internacional Saúde e Ambiente (ENSP-NOVA);

• Apelar às escolas de saúde e ordens para integrar sustentabilidade nos currículos;

• Participar em projetos financiados pela União Europeia;

• Angariar financiamento para estudos e investigação aplicada;

• Promover sessões públicas e campanhas de sensibilização sobre Saúde e Ambiente.

3.8. Estimular a saúde urbana e a ligação às autarquias

• Apoiar o Whitepaper sobre Saúde Urbana;

• Apoiar o Living Book sobre eventos climáticos extremos (Cluster da Saúde Urbana).

3.9. Apoiar iniciativas de economia circular em saúde

• Apoiar o projeto Second Chance;

• Apoiar o Living Lab de Saúde Circular (Cluster da Sustentabilidade Ambiental).

3.10. Consolidar e estimular as parcerias internacionais do CPSA e a projeção internacional do CPSA

• Manter a colaboração com os parceiros internacionais do CPSA: European Climate and Health Observatory, Lancet Countdown, Planetary Health Alliance, Healthcare Without Harm;

• Reforço de laços com organizações dos países lusófonos;

Manter a presença em reuniões científicas internacionais, apresentando o caráter inédito do CPSA, pela sua diversidade e abrangência das atividades.

Conclusão

O Plano de Atividades 2026 consolida o papel do CPSA como aliança nacional de referência na promoção da sustentabilidade ambiental na saúde. O seu sucesso dependerá da mobilização dos associados, da cooperação intersetorial e do compromisso ético e científico de todos os que reconhecem que cuidar do planeta +e também cuidar da saúde.

Pela Direção do CPSA

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Luís Campos

Presidente do CPSA

Lisboa, 24 novembro 2025